| Existe um
calçado esportivo ideal? Dr. Luiz Antonio de Azevedo Lage |
| Muitas pessoas, ao iniciar sua prática esportiva, seja caminhando ou
correndo, possuem dúvidas acerca de qual seria o calçado ideal para sua prática. A
mídia, naturalmente ajuda nesse processo, pois são inúmeras as marcas anunciadas, com
tecnologias diversas, inclusive alusivas a um melhor rendimento esportivo ou absorção de
choques drásticos. Mas será que isso de fato ocorre? Teria o calçado poderes mágicos
para afetar o desempenho? Vamos analisar rapidamente as características da locomoção
para entendermos como essas variáveis estão associadas. A marcha é uma das mais elementares expressões do movimento humano e guarda característica complexidade. Podemos dividi-la em duas fases principais: A primeira delas é a fase de apoio, que envolve o contato do calcâneo com o solo, sendo portanto uma fase crítica do movimento, onde ocorre desaceleração e uma quantidade grande de choque é gerada. A segunda fase é chamada fase de balanço, e se inicia com o descolamento dos dedos do membro inferior e termina com o apoio do calcâneo do mesmo membro a fim de recomeçar o movimento. Nessa fase ocorre geração de energia mecânica, que irá garantir a propulsão do movimento. Dissemos que na primeira fase é gerado um choque, mas qual a intensidade do mesmo? Ele corresponde, em média a uma vez e meia o peso corporal e é o menor valor gerado pelo movimento humano. Só para termos idéia, no salto triplo, talvez a maior solicitação mecânica do esporte, esse valor atinge vinte vezes o peso corporal. Se o valor do choque, em uma caminhada não é tão grande, porque os anunciantes alardeiam tanto a absorção do impacto? O que ocorre é que a intensidade ou o volume do exercício por vezes são excessivos, comprometendo dessa forma o aparelho locomotor que pode não estar adaptado a essas exigências. Também no caso dos idosos há um menor limite de tolerância para essa carga, devido à falência de estruturas como ossos, ligamentos e articulações. Os obesos são outro grupo que requerem atenção especial pois seu peso corporal é elevado, tornando o valor absoluto do choque muito grande. Dessa forma, o calçado tem sim sua importância na proteção do aparelho locomotor e proteção de lesões. Estudos comparativos feitos com indivíduos calçados e descalços mostram que de fato o calçado é capaz de reduzir a sobrecarga mecânica, embora não exista um modelo mais eficaz que possa ser considerado ideal. Esse fato se deve às inúmeras variáveis envolvidas na questão, pois cada sujeito se adapta a determinadas características do calçado, e os sujeitos tendem a se adaptar de forma particular às diferentes características de construção do mesmo. Há todo um conjunto de características estruturais do aparelho locomotor, histórico de lesões, experiências prévias e estilos de corrida ou caminhada que devem estão envolvidas nesse processo. È claro que um calçado melhor construído permite que mais sujeitos se adaptem a ele, embora muito dessa percepção de conforto e adequação seja subjetiva. Nosso poder de discernimento no que se refere a percepção de carga mecânica é bastante baixa, em compensação temos alta capacidade perceptiva para variações de pressão, o que pode nos levar a erros na avaliação de um calçado. Esse seria o caso de um calçado mau construído, mas com uma palmilha extremamente confortável que nos dá a sensação de ausência de carga. A palmilha é um fator a ser considerado, ela deve possuir formato anatômico, de forma que abrace os pés, mas deve-se entender que ela não atua no amortecimento de choques. O que deve ser entendido quanto ao controle de choques, é que ele não depende apenas do calçado utilizado, mas também do tipo de piso em que se dá a prática esportiva bem como a estrutura muscular do praticante. Tanto o controle de sobrecarga mecânica, quanto a geração da energia propulsiva dependem de um conjunto de ações coordenadas que envolvem todas as articulações do membro inferior. Nesse aspecto é muito relevante a massa muscular que o indivíduo possui, pois OS MÚSCULOS SÃO OS MELHORES AMORTECEDORES PARA CHOQUES QUE EXISTEM, e não os calçados! Quanto ao tipo de solo, os mais adequados são a grama bem aparada e o piso sintético, sendo o asfalto a pior opção. Outro fator a ser observado no calçado é a estabilidade que ele proporciona. Na locomoção é normal ocorrerem movimentos de pronação e supinação dos pés, que não devem ser de todo eliminados, mas sim controlados. O movimento de rotação da tíbia para controlar esses movimentos excessivos podem lesar meniscos, ligamentos dos joelhos afetando até os quadris e dessa forma provocando desarranjo total do aparelho locomotor. Esse é um desafio para um bom calçado, o controle da estabilidade do movimento. Observando a evolução dos modelos de solado dos calçados esportivos, notamos que hoje não há nenhum com o solado totalmente reto, mas com uma pequena elevação do calcâneo. Essa elevação deve possuir um valor ideal (entre 2,3 a 3,3 cm) de forma a reduzir a pronação do pé. Outra alternativa refere-se a dureza da sola do calçado, já que um solado mais macio ou mais rígido apresenta interferência nos padrões de estabilidade e amortecimento. Assim, um solado mais duro ajuda a controlar as forças externas, aumentando o amortecimento, mas causam prejuízos à articulações por não reduzirem os movimentos de pronação. Já um solado macio, não reduz tanto o amortecimento, mas otimiza a estabilidade. Dessa maneira podemos sugerir, que cada um avalie as características de seus pés antes de escolher um calçado. Os pés cavos, que possuem um arco de sustentação elevado, não absorvem bem o impacto e porisso exige um calçado em que essa propriedade seja enfatizada. Já os pés com pouco ou nenhum arco, ou pés chatos, tendem a um movimento excessivo de pronação, portanto necessitam de um calçado que proporcione maior estabilidade. Por todas essas variáveis, concluímos que o calçado pode auxiliar no controle de impactos, porém sua influência é bastante relativa e sujeito dependente. Se você está satisfeito com o calçado que costuma usar normalmente para se exercitar, e esse tem lhe proporcionado adequada proteção, continue a usar essa marca, pois é a que melhor se adapta às suas características. Caso contrário, escolha outro cuidadosamente, determinando quais são suas necessidades. Dito isto, bom treino a todos, continuem se exercitando e mantendo músculos e ossos fortes e saudáveis.
Sobre pés descalços Por mais que pareça estranho, para nós cosmopolitas, existem indivíduos que preferem correr ou caminhar descalços. O baixo índice de lesões nessas populações, indica que ocorrem adaptações em nosso aparelho locomotor de modo a tornar viável essa prática. De fato, o desconforto de um terreno irregular provoca mudanças na forma de pisar, ocasionando uma hipertrofia da musculatura da planta dos pés de forma a dar mais suporte ao arco do pé. Esse é o motivo pelo qual se recomenda às crianças brincarem na areia descalças.
a pisada normal b pisada supinada c pisada pronada
a vista por baixo de um pé normal b vista por baixo de um pé cavo
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